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É fácil visitar o centro histórico UNESCO de Florença do ponto de vista logístico, pois fica tudo muito perto! Como toda cidade italiana, a questão aqui é como enfrentar 2000 anos de história a cada passo!

Centro Religioso (Praça do Duomo), Praça da República, “Bairro de Dante”, Mercado Novo, Ponte Velha e Praça da Senhoria resumem o mínimo a visitar do centro histórico de Florença.

Então vamos lá!

Praça do Duomo no centro histórico de Florença

Visitar o centro histórico de Florença
Praça do Duomo: Visitar o centro histórico de Florença

A praça que vemos hoje fica no limite do perímetro da cidade romana e sabemos, por exemplo, que o batistério foi construído sobre uma domus romana. O batistério florentino é o monumento mais amado pelos florentinos desde à noite dos tempos (Dante escreverá o famosos verso “Il mio bel San Giovanni”) e a sua datação é das mais incertas. Entretanto acredita-se que o corpo central tenha sido erguido no V século. A decoração, tão característica de vários edifícios toscanos, teria sido feita sucessivamente em dois tempos, nos séculos XI e XIII-XIV.

Seu interior tem uma das decorações com o tapete marmóreo e mosaicos na cúpula que são das mais bonitas da Idade Média.

O batistério e a "scarsela" (ábside retangular) da Praça do Duomo de Florença
Visitar o batistério e a “scarsela” (ábside retangular) da Praça do Duomo de Florença

Visitar o centro histórico de Florença: a catedral de Arnolfo de Cambio

Com um batistério de uma certa proporção imponente, a antiga catedral, dedicada à Santa Reparata tinha ficado pequena demais para uma cidade economicamente e politicamente tão importante como Florença no século XIII – o século de ouro e do florim de ouro, a primeira cidade que vai bater moeda de ouro desde o tempo dos romanos!

A grande catedral com projeto originário de Arnolfo de Cambio e depois aumentado pelo Talenti, após a morte do primeiro, foi iniciada em 8 de Setembro de 1296. Este edifício ficará sem a cúpula por vários decênios até aparecer um gênio chamado Filippo Brunelleschi, que terá a solução para construír a cúpula que tem um diâmetro interno de quase 50m. A maior empresa arquitetônica do Renascimento se concluiu em 1446.

Fachada do DUomo de Florença
Fachada do Duomo de Florença, vista do bar irlandês da praça

Visitar o centro histórico de Florença: a praça da República

Aqui é onde tinha a sensação que meu professor de Arqueologia ia começar a chorar toda vez que vínhamos ter uma aula! A praça tão moderna, realizada durante as reformas do século XIX para preparar Florença como capital, era o ghetto florentino, que por sua vez tinha sido construído sobre o antigo capitólio da cidade romana.

O fato de colocar tudo abaixo, seguindo o modelo francês de grandes espaços, grandes avenidas e grandes praças, eliminou da história florentina 400 anos de história. O grande arquiteto Corinto Corinti que foi encarregado da realização desta praça no século XIX teve o grande cuidade de realizar desenhos detalhadíssimos do que estava para destruir e, tendo sido o descobridor do antigo capitólio romano, documentou com extremo cuidado as ruínas encontradas.

Visitar o centro histórico de Florença: o “bairro medieval”

Ficou conhecido como “quartiere medievale”, bairro medieval em português, a área da cidade onde morou Dante Alighieri e os guelfos, isto é, a fracção filo-papal da cidade, que tinha como antagonista os ghibellini, filo-imperiais. Esta área possui ainda algumas das torres medievais, uma praça com um poço e uma casa que hoje é conhecida como o “Casa di Dante“, mas não se há certeza que o grande poeta tenha vivido neste edifício.

"Torre da Castagna", bairro medieval de Florença
“Torre da Castagna”, bairro medieval de Florença

Mas bem aqui ao lado tem a igreja de Santa Margherita, que provavelmente ele frequentou e também conheceu a sua musa inspiradora, Beatrice, a Torre della Castagna, a torre mais antiga da cidade que fazia parte da Badia Fiorentina e que serviu como primeira sede de governo quando formou-se a Comuna.

Visitar o centro histórico de Florença: Praça da Senhoria

Visitar o centro histórico de Florença é conhecer o coração político da cidade desde o século XIV até hoje, temos mais um edifício construído inicialmente pelo grande Arnolfo di Cambio, a estrela do final do século XIII, início do XIV.

Palazzo Vecchio (Palácio Velho) na Praça da Senhoria de Florença, visitar o centro histórico com guia credenciada
Palazzo Vecchio (Palácio Velho) na Praça da Senhoria de Florença, visitar o centro histórico com

Efetivamente não havia espaço na cidade medieval para realizar o projeto urbanístico de uma praça. O luxo desta área tão ampla se deve ao fato que aqui moravam os famigerados ghibellinos, que quando foram expulsos de Florença, tiveram as suas torres colocadas abaixo pelos guelfos. E até sal foi jogado sobre os edifícios destruídos, com o significado simbólico que nenhum descendente retornasse aqui!

Pátio do Palácio Velho de Florença, visitar o centro histórico com guia credenciada
Pátio do Palácio Velho de Florença

A série de esculturas que estão expostas na frente do Palácio Velho foram todas realizadas entre os séculos XV e XVI e são um capítolo à parte; mas vou enumerá-las aqui, pois são todas dignas de serem admiradas: o “Leão Marzocco” e a “Judite” do Donatello; a cópia do século XIX do “Daví” do Michelangelo; “Hercules e Caco” de Baccio Bandinelli.

Não perca o pátio do Palácio Velho que é maravilhoso com a “maquiagem” realizada para o casamento de Francesco I e Joana D’Austria. De lá você tem acesso à bilheteria se quiser comprar ingressos para subir aos andares superiores e até à Torre. Claro que vale a pena!

A Loggia dei Lanzi

Ao lado do Palácio da Senhoria é impossível não notar a Loggia dei Lanzi, um edifício com teto e arcadas que os sustentam que o colocam em diálogo direto com a praça. Pérola medieval de arquitetos que sobreviveram a peste negra de 1348, talvez seja um projeto de Simone Talenti para que se pudessem realizar assembléas públicas.

Quando Cosimo I de Medici assumiu o poder, colocou a sua guarda do corpo na loggia, que por essa razão ficou conhecida como “loggia dei lanzi“, dado que eles eram alemães, também conhecidos como “lanzichenecchi“.

As esculturas foram sendo adicionadas ao longos dos séculos e são um capítolo à parte a ser contado em um outro post. A curiosidade é que podemos contar 600 imagens de leões aqui! Os florentinos são loucos por leões, que é o primeiro símbolo da cidade, como o leãozinho marzocco, esculpido por Donatello, na frente do Palácio da Signoria (original no Museu do Bargello).

Uma pontinha dos Uffizi podem ser admirados do centro da Praça da Senhoria. Cosimo I de Medici, o estadista com punho de ferro quis controlar a potentíssima câmera de comércio (ou corporações) e realizou escritórios para receber as diferentes sedes da câmera de comércio e o tribunal de justiça.

Visitar Florença: o Mercado Novo

Construído na metade do século XVI, e assinado pelo Giam Tasso, originalmente era um mercado para a venda de seda. Hoje temos vários quiosques que vendem bolsas e artigos de couro. A curiosidade aqui é que quando um comerciante falia, tiravam a sua calça e o jogavam bem no centro deste mercado (há uma lastra redonda bem no meio do edifício). O pobre coitado não tinha alternativa à ir-se embora correndo de Florença pela vergonha!

O Javali ou “Fontana di Trevi” florentina, como ironizam alguns dos meus colegas, é originalmente uma escultura em mármore helenística que foi dada de presente a Cosimo I por papa Pio IV (hoje nos Uffizi). Cosimo II de Medici mandou o escultor Pietro Tacca fazer uma cópia (hoje no Museu Bardini), que foi transformada em fonte, por Ferdinando II de Medici.

Dizem que dá sorte jogar uma moeda e passar a mão no focinho do “porcellino“, como é afetuosamente chamado o javali.

VIsitar o centro histórico de Florença: a ponte velha no outono
Ponte Velha linda em todas as esções do ano; aqui é no Outono

Visitar Florença: Ponte Velha – Ponte Vecchio

A Ponte Velha é um dos símbolos de Florença e foi realizada após uma inundação que tinha destruído a “verdadeira ponte velha”; acredita-ser que o arquiteto-engenheiro aqui tenha sido Neri di Fioravanti, na segunda metade do século XIV.

Originalmente os estabelecimentos comerciais que ficavam em cima da ponte eram açougueiros, mas foram sistematicamente removidos para dar lugar aos tradicionais ourives que vemos hoje. Decisão sábia do Grãoduca Ferdinando I de Medici.

Sobre a Ponte Velha passa o famoso corredor vasariano, obra fantástica do arquiteto Vasari para Cosimo I de Medici, na segunda metade do século XVI, 1km de corredor construído em apenas 5 meses para ligar o Palácio Velho ao Palácio Pitti, em ocasião do casamento de Francesco I com a Joana D’Austria.

O próprio Vasari comenta orgulhoso o quanto foi ousada a sua obra: “non ho mai fatto murare altra cosa più difficile né più pericoloso, per essere fondata in sul fiume, e quasi in aria”, resumindo e traduzindo muito livremente ” olhaí gente, nunca fiz um troço tão alto e tão perigoso por estar perto do rio e suspenso no ar”. Hoje em dia estamos acostumados com edifícios altíssimos, de quase 1km, mas no século XVI esta obra foi louvável – e cá entre nós, ainda é!

Dica: os edifícios são lindos e com muita história. Vale a pena entrar em vários deles, como batistério (para mim número 1) e Duomo, Palácio Velho (museu suuuuper interessante), assim como outros lugares que irei postando nas próximas semanas.

Fica aí a dica da estrutura básica do que admirar no centro histórico, esperando que seja entendido entre as linhas que Florença há muito mais a oferecer!